quarta-feira, agosto 05, 2009 |
Autor: Ebenézer Teles Borges

Nada daquilo fez sentido para mim. Como poderia eu mesmo ser meu maior inimigo? Não percebia em mim essa auto-hostilidade toda, nem me via como uma ameaça dissimulada a mim mesmo. Contudo, vindo de meu irmão e tendo o aval de meu pai, não havia por que discordar e, resignado, acolhi essa nova crença como verdadeira, passando a divulgá-la entre meus amigos.
Esse episódio serve para ilustrar o que me aconteceu reiteradas vezes no passado e que, talvez, possa ter-lhe ocorrido também. Ao longo da vida, dei guarida a muitas crenças cuja única âncora era o testemunho de pessoas em quem eu depositava confiança cega. A lógica por trás dessa minha atitude é de fácil compreensão: se tais pessoas eram de minha confiança, logo tudo que me diziam era confiável, fidedigno, verdadeiro, inquestionável. A vida, no entanto, se encarregou de me abrir os olhos para o fato de que as boas intenções e o cuidado sincero daqueles que nos amam não são salvaguarda inabalável contra o engano.

Com relação as minhas crenças, sempre almejei aquelas que pudessem estampar o selo da verdade. Mais que isso, eu sempre acreditei ter acertado na escolha delas. Mas sou humano e cognitivamente imperfeito. Portanto, posso sim ter me equivocado e albergado crenças falsas.
É por essa razão que me faço a seguinte pergunta: Será que me enganei em crer no que sempre cri? Logo eu, que sempre acreditei que os outros é que estavam enganados?
Admitir essa possibilidade não me foi tarefa fácil ou agradável. Causou-me certo desconforto por ir de encontro à minha natureza. Como todo ser humano, gosto de estar certo sempre, de pisar em solo firme, de me sentir seguro em minhas convicções. Ser-me-ia mais cômodo assumir a autenticidade de minhas crenças e insistir na defesa deles, mesmo que, para isso, fosse necessário fechar os olhos às evidências, distorcer fatos e fazer alguns ajustes na realidade.
Confesso-lhe que por um breve tempo tentei agir assim. Tentei acomodar a realidade aos moldes de minhas crenças. Esforcei-me para "empurrar" o mundo numa determinada direção. Mas falhei... Aprendi uma lição: empurrões honestos e sinceros também provocam acidentes!
Outra lição que aprendi à duras penas é que minhas crenças nunca tiveram o poder de legislar sobre a realidade. Isso mesmo. Minhas crenças, por mais que me parecessem verdadeiras, por mais que me trouxessem conforto e segurança, por mais que me fizessem sentir-me especial, eram apenas crenças, isto é, um palpite vago, uma aposta incerta, um desejo hesitante, uma esperança frágil e trêmula de revestir de sentido essa realidade fria e rude que nos cerca, envolve, fascina, assusta e surpreende.
Que devo, então, fazer com minhas crenças? Desfazer-me de todas elas?
Penso que não. Devo, isto sim, revisá-las com cuidado, atenção, interesse e o máximo de isenção possível, consciente de que nem todas são falsas e nem todas verdadeiras.
Outrossim, devo proceder com humildade e me dispor a abrir mão daquelas crenças que se mostrarem falsas: crenças alienantes, crenças que me distanciam da realidade, que me afastam dos seres humanos, que me induzem a ver a mim mesmo como um ente especial e me instigam a virar as costas para o mundo por julgá-lo vil e mal.

Categoria:
crenças,
ponto de vista,
religião
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6 comentários:
Honesto e reflexivo... Gostei do texto, parabéns!
Muito bom o texto; nos faz pensar...
"Será que me enganei em crer no que sempre cri? Logo eu, que sempre acreditei que os outros é que estavam enganados?"
"devo proceder com humildade e me dispor a abrir mão daquelas crenças que se mostrarem falsas"
"Eis aí uma bela crença a ser cultivada e incentivada – a crença de que podemos dar as mãos e, juntos, construir aqui mesmo um mundo melhor para todos!"
Yes, we can!
=D
Pois é: aqueles eram outros tempos. Ninguém nos dizia que tudo o que críamos tinha sido transmitido por outros humanos. Humanos acreditando em humanos que nos levavam a crer que tinham sido inspirados. Tudo de humano para humano, tendo com sustentáculo a confiança neles, os humanos.
Que ironia que do famoso livro tenhamos aprendido que é "maldito o homem que confia no homem".
Como, então, acreditar no inefável sem auxilio do limitado homem?
Seria tão simples ter enxergado antes...
Mas nosso EGO, com o seu fé, continua sendo nosso grande inimigo. Parece que precisamos vencê-lo para crer ou para deixar de crer...
Que mundão!
É isto aí,Ebenézer.
Cuidado,para você não continuar sendo seu próprio inimigo,agora com a descrença.Muita crença nos torna alienados e a descrença total nos extirpa o direito de sonhar.Há um balanceamento entre, por sermos humanos e crédulos.
Linkei este texto no meu blog e ele está entre os "top".
Parabéns!