sábado, maio 23, 2009 | Autor: Ebenézer Teles Borges
Há dias em que não sinto a menor vontade de sair da cama. Não que a cama esteja assim tão boa. É que o que me espera fora dela desanima. Até onde sei essa indisposição pode acontecer (e acontece) com qualquer um, menos com o Super-Homem, que não é deste mundo. E eu, que não sou kriptoniano, me peguei ontem em um desses dias de desencanto e mal-estar.

O motivo? Nada de grave. Nada que você ou qualquer um que já cresceu não tenha experimentado: um probleminha aqui, uma preocupaçãozinha ali, um incômodo acolá. Apenas isso. Nada demais. Coisas de adulto... Em dias assim, sabe-se lá por que, essas coisinhas pequenas tornam-se grandes o bastante para me assustar. E a ansiedade aparece, o desconforto cresce e o rio da vida deixa de fluir com leveza. Melhor seria se pudesse permanecer na cama...


Mas não dá. É preciso levantar, erguer a cabeça e ir à luta. Somos adultos. Descobrim
os que não somos especiais nem estamos imunes aos males que a vida traz. É claro que a vida tem seu lado bom e belo. Sabemos disso. Mas, em dias assim, cinzentos, esse saber não nos consola. Prevalece a falta de ânimo. O corpo padece, a alma entristece e a vida perde o brilho. Dá vontade de voltar a ser criança e escapar dos compromissos e obrigações da vida adulta... E quem nunca se sentiu assim que atire a primeira pedra!

Tenho pra mim que o mundo da criança é bem mais interessante que o do adulto. Ele se apresenta cheio de vida, encanto, vibração e surpresas. É um mundo que se renova a cada instante, que se revigora a cada novo olhar.

O mundo do adulto, por outro lado, afigura-se um tanto sisudo e chato,
cansativo e monótono, enfadonho e repetitivo. Nele, trabalha-se muito, diverte-se pouco e a inocente exploração da realidade cede lugar à tediosa e responsável luta pela sobrevivência. As preocupações aumentam, o vigor físico diminui e a saúde começa a vacilar. O tempo deixa de ser um aliado e o futuro não se mostra mais tão amigo e amistoso quanto antes. Ser adulto não é fácil e nem sempre é bom. Às vezes chega a ser terrível e assustador. É quando, no íntimo da alma, sobrevém o espanto. E o homem se sente inseguro como menino, qual ave que saiu do ninho, sem saber se é capaz de voar.

Quem, alguma vez na vida, não se cansou de ser adulto? Quem nunca sentiu saudades da infância? E quem nunca desejou ter um pai amoroso, protetor e provedor, que assuma a responsabilidade e pague nossas contas? (Penso que tolo é quem não quer ter vida mansa).

Não estou só nesse desejo. E se duvidam, peço-lhes que deem uma olhada nas igrejas. Elas estão aí, em todo canto, em cada esquina. São erguidas do dia pra noite. Proliferam-se como se fossem ervas daninhas, embora não sejam. São flores que desabrocham sob chuvas de bênçãos que descem do céu. Observem-nas: a cada dia estão mais cheias de fiéis, pessoas que, cansadas da luta, buscam alívio nas promessas de prosperidade aqui e na esperança de facilidades futuras. Almejam ir para o Céu, um lugar especial no qual doenças não entram, tristezas não há, também não há contas a pagar, nem trabalho extenuante, nem rotina enfadonha, e muito menos adultos... Isto mesmo. No céu não há adultos, apenas crianças. Lá seremos todos inocentes e felizes. E teremos asas, como anjos e pássaros, com as quais poderemos voar sem medo.

Com efeito, o céu é um lugar destinado a crianças. Lá adulto não tem vez. É o que diz a Bíblia (S.Mateus 19:14). Nicodemos, um adulto, não estava credenciado a entrar nele a menos que renascesse como criança (S. João 3:3). Está escrito: "Se não ... vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus" (S.Mateus 18:3).

E ao que me parece, as igrejas estão interpretando esses textos ao pé da letra. Estão tentando transformar adultos em crianças. Tarefa difícil, senão impossível. Mais fácil é condicioná-los à agirem de modo infantil. E nisso elas estão logrando êxito. Duvidam? Então vou lhes dar um exemplo de aluno dedicado e que foi até elevado ao status de "santo", S. Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (os jesuítas). Ele afirmava e testemunhava da mudança que lhe ocorreu com as seguintes palavras: "Acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierarquia da igreja assim o tiver determinado" [1]. Pronto. Virou criança!

Sinceramente, gosto de criança, mas adulto com comportamento infantil me enoja.


E retornando ao incidente que motivou esse texto, ontem acordei desmotivado, sem disposição para encarar os compromissos do dia. Senti até o desejo de voltar a ser criança, de poder não ser responsável, de deixar que outros decidissem tudo por mim. Mas ainda ontem, ao me lembrar do exemplo desse "santo", percebi o quão feio é ser pueril depois de já ter crescido. Se para ser santo é preciso agir assim, contento-me em permanecer pecador. Se ser criança é proceder dessa forma, prefiro continuar adulto.

Não pretendo abrir mão de meu discernimento, de minha capacidade cognitiva, da faculdade de pensar, da liberdade de escolher, acertar ou errar. Sei que renúncia ou negação não fará de mim uma criança, e sim um imaturo. Sei também que ser adulto não é fácil e nem sempre é bom. Mas, mesmo assim, estou decidido a continuar agindo como tal.

E você, o que decide?




Referências:
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5 comentários:

On 24 de maio de 2009 21:57 , CONVICTOS OU ALIENADOS? disse...

Texto maravilhoso e realista. À luta! Nosso destino é lutar!

 
On 25 de maio de 2009 16:31 , Cleiton Heredia disse...

Este é um dos textos mais significativos que já li. Sua capacidade de relatar sentimentos complexos e traduzi-los em uma argumentação clara, porém profunda, muito me admira.

Você sabia que às vezes nossa vida adulta precisa de um pouco de mágica que nos lembre que ainda podemos nos fascinar e emocionar como se fossemos crianças?

Portanto, caso tenha um tempo disponível, dê um pulinho na AMSP, pois HOJE às 21 horas é a nossa noite festiva e você é o meu convidado de honra.

 
On 25 de maio de 2009 23:15 , detextoemtexto disse...

Cleiton, como já lhe disse por e-mail, espero em breve assistir a uma dessas suas apresentações. Também estou muito curioso a respeito das técnicas de mentalismo.

Assim que me organizar melhor, aparecerei. Por enquanto, obrigado pelo convite.

 
On 26 de maio de 2009 18:49 , Ricardo disse...

Ebenézer,

O Cleiton tem razão, você é ótimo na arte de passar para o papel seus sentimentos. De minha parte, sou um adulto plenamente satisfeito com a maioridade e não sinto a mínima falta dos tempos infantis, que foram muito bons por sinal. Para dizer a verdade, lendo esse seu texto, percebi que não tenho saudade de nada do que já passou. Hum! Acho melhor eu procurar ajuda profissional (rs).

 
On 28 de maio de 2009 22:22 , detextoemtexto disse...

Ricardo,

Interessante sua colocação. A saudade do passado pode ser um sintoma de que algo não anda bem no presente.

 
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