
Dificilmente conseguimos abordar certos temas sem paixão. Jesus é um desses temas, talvez o mais polêmico para nós que vivemos no Ocidente cristão.
Fruto de fecundação incomum à cultura judaica (e corriqueira à mitologia grega, na qual divindades fertilizam mulheres), Ele nasceu de parto natural, de mãe virgem e que virgem permaneceu após ter dado à luz. Sua história é permeada de mistérios, a começar por um longo período de silêncio, seguido por um curto e tumultuado ministério marcado por discursos polêmicos, parábolas enigmáticas, profecias ambíguas, milagres inacreditáveis e teofanias extraordinárias. Amado por uns, odiado por outros, incompreendido pela maioria, encontrou-se com a morte durante as comemorações da principal festa nacional de Israel, a Páscoa - três anos após o início de Seu ministério. Mas, isso não foi o fim. Jesus ressurgiu do túmulo, voltou à vida, venceu a morte e reapareceu triunfante para escrever o final apoteótico de Sua missão na Terra: seu retorno ao Céu, morada de Deus, evento esse testemunhado por alguns seguidores fiéis, os quais receberam, como recompensa, a promessa de que, em algum dia num futuro próximo, o próprio Jesus voltaria para resgatá-los deste mundo de dor e lágrimas.
Dois mil anos se passaram e muitos ainda aguardam o cumprimento dessa promessa; relêem a Bíblia, buscando, nas palavras de Cristo, sinais que reforcem essa fé e alimentem essa esperança... Nesta semana de Páscoa, o Ocidente cristão relembra, mais uma vez, a paixão (isto é, o sofrimento) de Jesus na Terra, nutrindo, desse modo, uma tradição milenar de fé nAquele que é considerado ao mesmo tempo Deus, Homem e Salvador da humanidade.
O que dizer de tudo isso? Verdade ou falsidade?
A resposta a essa pergunta dependerá do interlocutar a quem ela for dirigida. Muito provavelmente, a mente racional relutará em aceitar como veraz a fecundação de uma mulher por uma divindade, o nascimento virginal, qualquer um dos muitos milagres a Ele atribuídos, a ressurreição dos mortos e outras tantas narrativas quase impossíveis de serem comprovadas. O coração fiel, por outro lado, não encontrará muita dificuldade em tomar como certas todas essas coisas. É que a fé tem a singular capacidade de nos transportar para o interior de um mundo encantado. E uma vez lá dentro, qualquer narrativa, por mais fantasiosa que seja ou pareça, adquire a solidez de uma rocha.
Então, reformulo a pergunta: essa narrativa, parte importantíssima do discurso cristão,
faz algum sentido?
Para esclarecer melhor essa questão, vou parafrasear uma ilustração proposta por Rubem Alves, em um de seus muitos livros
[2], que ressalta a diferença entre verdade, falsidade e falta de sentido. Observe: quando afirmo que
"o fogo é frio" estou enunciando uma falsidade, pois afirmei algo que todos entenderam, mas que não corresponde à verdade. Não há fogo frio. É da natureza do fogo ser quente. Porém, se faço uma afirmação incoerente como esta:
"o fogo, diante da probabilidade, escureceu o silêncio", você ficará confuso, pois mesmo reconhecendo cada uma das palavras, não perceberá qualquer sentido na frase. Nesse caso, não posso afirmar que esse enunciado é falso, pois,
para que seja declarado falso é necessário, primeiramente, que ele faça algum sentido.
Voltemos à pergunta anterior: a narrativa da vida Jesus conforme a temos nos Evangelhos – repleta de milagres, pontilhada de intervenções divinas, permeada de feitos sobrenaturais – é verdadeira, falsa, ou sem sentido?
Sou do ponto de vista de que a resposta é irrelevante e, ainda que se chegue a um consenso sobre essa questão, tal conclusão pouco influenciaria nos caminhos e nas escolhas do Ocidente cristão: muitos prosseguiriam crendo; outros permaneceriam céticos e um terceiro grupo manter-se-ia indiferente a tudo isso. É possível, ainda, identificar um quarto grupo, composto por "empreendedores", que enxergaria em tudo isso uma oportunidade comercial e a usaria para alavancar seus "negócios", seja vendendo cerveja, ovos de Páscoa, pacotes de viagens ou um lugarzinho no céu ao lado de Jesus.
Então, sendo que, para mim, a resposta à pergunta anterior é um tanto irrelevante, vou propor uma nova questão que me soa mais significativa e passível de ser respondida:
o que há de verdadeiro na comemoração da Páscoa, que possa ser relacionado à pessoa de Jesus de Nazaré?
Talvez o sentimento sincero de alguns fiéis que, de fato, acreditam naquilo que seus lideres religiosos lhes ensinaram. Talvez o desejo oculto no coração humano de se encontrar com Alguém (Jesus) que lhe seja maior e mais forte; que seja humano o bastante para nos compreender e divino o suficiente para nos socorrer; que tenha resposta para as nossas indagações e solução para nossos problemas; que seja amigo, irmão e pai presente e
palpável, que nos faça sentir capazes de enfrentar os desafios da vida, de cabeça erguida e com o coração aquecido pela certeza de que nossa existência faça algum sentido... Talvez a esperança de que tudo o que foi dito acerca de Jesus de Nazaré seja verdadeiro e que, de fato, Ele possa e queira nos valer e, um dia, regresse a este mundo, para nos explicar o porquê da vida ser tal qual é.
Com efeito, a Páscoa nos lembra, ainda, que existem algumas evidências favoráveis à existência desse Jesus histórico que andou pelas estradas empoeiradas do antigo Israel, dois mil anos atrás. Se esse Jesus foi o Filho de Deus ou um simples carpinteiro
(ou pedreiro?) de Nazaré; se ressuscitou corpos ou se deu nova vida a espíritos desfalecidos; se curou cegos ou se ensinou os homens a enxergarem a vida sob nova perspectiva; se fez coxos andarem ou se injetou nas pessoas a convicção de que é possível sair da inércia e locomover-se em busca dos próprios sonhos; se prometeu um céu futuro ou se nos facultou a possibilidade e a capacidade de viver em um céu presente... não saberei responder.
Gosto de pensar que esse Jesus existiu e aproveito a Páscoa para relembrar alguns de Seus ensinamentos: viver uma vida de amor e respeito, acreditar no impossível, olhar para frente com esperança e otimismo, nunca abdicar da fé em si mesmo
("tua fé te salvou", disse Ele reiteradas vezes) e, se porventura a esperança enfraquecer, o otimismo cessar e a fé desfalecer, ainda assim, dar um passo adiante e apegar-se ao impossível: acreditar em milagres, acreditar em Deus...
Como você pôde perceber, fiz várias perguntas ao longo desse texto e reconheço que fui incapaz de oferecer respostas conclusivas a qualquer uma delas. Lamento. Resta-me fazer uma última recomendação: separe um tempo nessa Páscoa para refletir sobre a enigmática figura de Jesus de Nazaré. E, se desejar, poste aqui suas impressões a respeito dAquele que,
para muitos, é o Deus que se fez homem para dar sentido à vida dos homens e, para outros, o homem a quem fizemos Deus, para, de igual modo, dar sentido à nossa própria existência.Referências:[1] Imagem - http://www.semipa.org.br/especiais/apaixao/images/intro.jpg[2] O que é Religião - Rubem Alves, 1981, p. 39.