domingo, março 02, 2008 | Autor: Ebenézer Teles Borges
O dia amanheceu com ares outonais: céu de brigadeiro, sol faceiro e brisa mansa. Esse belo domingo parecia me convidar a pôr um tênis e sair correndo por aí, sem rumo e sem pressa, investindo o tempo em fazer aquilo que me apraz. Não resisti. Aceitei o convite, alonguei a fáscia do pé esquerdo, coloquei uma roupa leve, acionei o freqüencímetro e o sensor de velocidade e fiz de mim um corredor.

Correr desperta em mim uma enorme sensação de liberdade. Durante a semana quase não tenho tempo para mim mesmo. Vivo sob a escravidão do relógio e o imperialismo dos compromissos. Os dias voam e, quando me dou conta, a semana já se foi. Mas nos fins de semana, como num passe de mágica, posso me dar o prazer de abandonar o carro, o metrô, o trem e seguir por aí usando as próprias pernas como veículo de transporte. Posso correr pela contra-mão, subir na calçada, acelerar à vontade sem medo de ser multado, escolher qualquer percurso sem temer congestionamento – e o melhor: sem hora marcada, sem destino certo, sem celular, sem o peso da obrigação. Que maravilha! Quanta vida em apenas uma hora de corrida!

Ando sofrendo de dores na fáscia, uma lâmina de tecido fibroso que se estende ao longo do pé, fixando-se no calcanhar. Já passei por isso antes, em 2002, e precisei de um bom tempo de recuperação usando calcanheira. Naquela ocasião não fui impedido de correr e espero que, agora, não precise parar. Comecei a correr em companhia dessa dor que, definitivamente, não combinava com a exuberância do dia. Se a dor era intensa, maior que ela era o prazer proporcionado pela corrida. Não consegui parar. Começava assim uma queda-de-braço entre o prazer e a dor, até que a dor se cansou e o prazer venceu. Despedi-me dela e prosseguir sozinho, ou melhor, em companhia do sol que reinava absoluto em um céu de azul profundo e quase despido de nuvens.

Mais adiante, passei pelo primeiro termômetro de rua que, por volta das 11h, marcava 27º C. O dia que amanhecera com cara de outono agora assumia os contornos do verão. Apesar disso, os quilômetros foram sendo vencidos com certa tranqüilidade até me deparar com a primeira grande subida. As pernas, antes dispostas, esboçavam agora os primeiros sinais de cansaço e o sol já não se mostrava tão amigo e companheiro como antes. Vi um senhor descansando sob a sombra de uma árvore frondosa e senti o enorme desejo de lhe fazer companhia. Resisti à tentação e prossegui.

Para meu espanto e desespero, lá pelo quilômetro 8, fui surpreendido pela dor que ficara de tocaia aguardando o meu retorno. À essa altura, a disputa entre "dor e prazer" pendia perigosamente em favor da dor. Percebi o quanto me falta para recuperar o condicionamento perdido. Terei que ser persistente! Reduzi ainda mais o ritmo e prossegui "aos trancos e barrancos" até chegar em casa, completando 10 km de corrida em aproximadamente 55 minutos.

Consegui. Cansado, suado, feliz!

Durante a semana prosseguirei em meus poucos e curtos treinos em esteira. É o que dá pra fazer quando não se tem tempo. Tudo bem. Não vou reclamar. Como diz a sabedoria popular, "melhor pingar que secar".


Referências:



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3 comentários:

On 3 de março de 2008 10:06 , Cleiton Heredia disse...

Gostei do relato do seu treino. Eles são sempre muito inspiradores.

Realmente o dia de ontem estava maravilhoso para uma corrida, mas meu joelho continua não querendo que eu corra.

Para não dizer que fiquei totalmente parado, resolvi dar 10 voltas dentro de um rio artificial de 320 metros com água pela cintura.

Correr dentro da água foi uma experiência interessante, pois além de não soar (mesmo debaixo de sol forte), também não cansa tanto como uma corrida na rua. Mas o melhor de tudo é que sem impacto, o joelho não reclamou.

 
On 3 de março de 2008 11:05 , Edleuza disse...

Esposo poeta...
uma simples corrida de final de semana transforma-se em um texto delicioso de se ler. Parabéns - pela volta aos treinos e pelo dom da palavra!
Um beijo.
Me.

 
On 3 de março de 2008 17:29 , CONVICTOS OU ALIENADOS? disse...

Lendo o "post" tenho vontade de fazer o mesmo. Pena que tenho ficado só na vontade.

Parabéns!

 
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