
Véspera de ano novo é sempre assim, mesmo sem sol, brilha na alma a luz da esperança. Como preciso de esperança! Alimento-me de esperança. Sem ela é difícil, senão impossível, encarar a vida e seguir em frente. Dela se nutrem os meus sonhos, nela se sustenta a minha fé, revigoram-se os desejos profundos do coração, as ambições secretas da alma, as aspirações sem preço que teimam em continuar vivas.
Chovia em São Paulo na véspera de ano novo. 2006 se despedia em pranto. Céu cinzento, nuvens escuras, sol ausente. No coração, contudo, uma luz trêmula brilhava. Era o cintilar de uma estrela: a estrela da esperança. Estrelas são pontinhos distantes, solitários, cuja luz não ilumina, cujo calor não aquece. Estrelas são pontinhos mágicos que lampejam na solidão da alma. Sua luz nos conforta e nos consola em noites sombrias e sem luar.
Chovia em São Paulo naquele fim de tarde. Adiante, dois desafios que se fundiam num só: Encarar os quinze quilômetros da São Silvestre e os trezentos e sessenta e cinco dias de um ano novo, desconhecido. Ambos logo teriam início e eu estava ali, presente: tênis no pé, lamparina da esperança na mão; pronto, ou quase pronto, para a largada.
Soa a buzina. É dada a largada. A corrida começa. A corrida começa?! Continuo parado.
Aos poucos, a massa humana começa a se mover, lentamente, ora para a frente, ora para os lados, sem coordenação. A água que caía do céu se empoçava na terra. Asfalto molhado e escorregadio: perigo à vista! Empurra-empurra: muita gente e pouco espaço. Sufoco: afobação e medo. Pernas quase paradas, coração acelerado.
Estou ali. Perdido. Por um instante não consigo me encontrar. Sou um pingo d'água na enxurrada de gente que flui morosamente pela Paulista. Sou arrastado pela multidão acéfala. Perdi a identidade, o controle, a independência, a vontade própria, o espaço onde pôr o pé. Sou conduzido, empurrado, amassado. Não existe eu, existe massa.
Na cabeça, quase um mantra: "não cair, não cair, não cair, resistir"! Ouço a voz da esperança, sussuro quase abafado pelo alarido do tropel, que me segreda palavras de ânimo, mais ou menos assim:
"Agüente aí, guerreiro,
esse momento há de passar.
Agüente firme, guerreiro,
O alívio não tarda em chegar".
Ao ouvir essa voz, em silêncio respondo:
"Doce voz da esperança,
voz de mãe que espanta o medo,
faz brotar no coração
um único e forte desejo:
sobreviver na Paulista,
superar a Brigadeiro".
Concluí mais uma São Silvestre, desta vez sem tanta empolgação – presságio do ano porvir?... O corpo úmido e frio pedia abrigo. Afastei-me aos poucos da turba, despedi-me da Paulista, respirei fundo e olhei pra frente com confiança, levando no peito a medalha e no coração a esperança.
Hoje olho pra trás. O ano de 2007 não correu, voou. Os dias competiram entre si para saber qual deles era o mais presto em passar. As horas se irmanaram em rotina e ficaram de tal modo semelhantes, que, agora, ao tentar relembrá-las, não as consigo distinguir. Perderam-se no rio da mesmice. Enquanto escrevo, lanço o anzol nesse rio e de lá tento pescar algumas recordações. Ano difícil, de duro aprendizado. Assim o resumo:
A esperança não me abandonou,
nem eu a ela.
Andamos juntos.
Sempre sós,
de mãos dadas.
Algumas vitórias.
Algumas conquistas.
Algumas comemorações:
Ilhas solitárias de doce prazer, no salgado mar das adversidades.
Esperança...
Algumas derrotas.
Alguns fracassos.
Algumas lágrimas:
Gotas vertidas no silêncio da alma para untar o solo árido da vida.
Esperança...
Algumas expectativas.
Alguns sonhos.
Alguns desejos:
Suspiros da alma que falam de vazios a serem preenchidos.
Esperança...
Muito labor.
Muito empenho.
Muita fé:
Confiança na vida para dar um passo adiante, apesar do medo.
Esperança
sempre!
Esperança:
Certeza sempre incerta de que o amanhã nos dará o que o hoje nos negou.
E assim despeço-me de 2007 e encaro 2008:
São Silvestre? Não.
Esperança? Sim. Sempre!
